a educação é uma disciplina

Esse texto faz parte de uma série sobre a filosofia de ensino de Charlotte Mason. Cada mês, postarei um resumo de um capítulo do livro “When Children Love to Learn: A Practical Application of Charlotte Mason’s Philosophy for Today”. O capítulo de hoje foi escrito por Maryellen St. Cyr.


“Para ter sucesso em qualquer aspecto da vida, é necessário ter uma certa disciplina.” (p.87)

Este capítulo trata de uma das bases de ensino Charlotte Mason: a educação é uma disciplina. Atualmente, é comum o termo “disciplina” vir carregado de uma conotação negativa – de opressão, repressão, falta de liberdade. Mas Charlotte Mason tem a disciplina como algo positivo, partindo de um ponto de vista bíblico: “Provérbios 22:6 fala sobre este assunto: ‘Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele.’ A palavra hebraica “treinar” implica um estreitamento, uma disciplina.” (p. 93)

A disciplina a qual Charlotte Mason se refere não se trata meramente de punição e sim de uma formação de hábitos que visam gerar frutos de vida. Ela observou em sua convivência com crianças que, caso não tivessem essa disciplina, elas permaneceriam reféns de suas tendências naturais,  “As falhas que eles tinham, eles mantiveram; as virtudes que tinham eram exercitadas com a mesma força que antes. A garota boa e mansa ainda contava mentiras. O filho brilhante e generoso estava incessantemente ocioso. Nas lições, foi a mesma coisa; a criança relapsa continuava relapsa, a criança mais lenta não se tornou mais rápida. Era muito decepcionante.” (p. 87)

O ensino Charlotte Mason, que visa dar a criança as ferramentas necessárias para se desenvolver segundo o propósito de Deus (“Criados na semelhança do Deus Todo-Poderoso, as possibilidades da criança são ilimitadas.” [p. 87]) vê essa “estagnação” como inaceitável. E desfrutar de todas as vastas possibilidades que Deus deu requer trabalho, primariamente dos pais e educadores. Infelizmente, hoje, temos a mentalidade de que os defeitos são reflexos da fase e assim, “as crianças são muitas vezes “entregues a sua natureza” na esperança de que elas eventualmente superem ou na desculpa de sua juventude ou individualidade”. (p. 90)

Essa tendência já era uma realidade na época de Charlotte Mason: “Em último caso, a criança, os pais e o educador começam a racionalizar o comportamento e as atitudes das crianças em termos de identidade, desculpando eles e outros por falta de esforço ou crescimento em uma área específica: “Fulano é realmente um tipo de criança preguiçosa (desordenada, descuidada, lenta, etc).” (p.88) Essa racionalização não cabe no ensino CM.  “Para que nós, os educadores de hoje, possamos ter os mesmos sucessos, é importante que também “abracemos as possibilidades” contidas na natureza humana de uma criança.” (p. 87)

E que forma toma essa disciplina no ensino CM? “A formação de hábitos é educação e educação é a formação de hábitos, mantinha Charlotte Mason” (p. 90) A formação de hábitos é a chave para essa disciplina.

Nessa formação de hábito, a responsabilidade inicial é dos pais. “Por ordem do próprio Deus, os filhos são discípulos de seu pai e mãe.” (p. 93) Não há como querer formar o hábito de leitura, por exemplo, em uma criança quando você mesmo não consegue ler por mais de 15 minutos. “As crianças terão hábitos, e nós, como pais e educadores, estamos envolvidos em formar esses hábitos ativamente ou passivamente todos os dias, a cada hora. Não podemos escapar desse fato. Mas se eu disser que sou responsável, talvez eu tenha que dizer que fui irresponsável.” (p. 91)

De quais hábitos estamos falando? Nossa disciplina, nossos hábitos, permeiam todo aspecto da vida, e devem ser trabalhados na criança por completo.

“1. Hábitos intelectuais: atenção, concentração, rigor, força intelectual, precisão, reflexão e meditação, esforço mental rápido e aplicação, pensamento, imaginação, lembrança e execução perfeita.
2. Hábitos morais: pensamentos bons, obediência, honestidade, reverência e temperamento.
3. Hábitos físicos: autocontrole, domínio próprio, autodisciplina, alerta, percepção rápida, força, serviço, coragem, prudência, castidade.
4. Hábitos espirituais: o pensamento em Deus, uma atitude reverente, a regularidade das devoções, a leitura da Bíblia, o louvor e a congregação.
5. Hábitos variados: exercício físico, boas maneiras e o ouvir e falar ” (p. 91)

Ao olhar para cada área, cabe aos responsáveis refletirem e discernirem: “Quais hábitos estamos ativamente envolvidos em formar? Quais hábitos formamos passivamente? (p. 91)
E qual a real importância disso? Existe a importância para a criança enquanto indivíduo (“Porque é invariavelmente verdade que a criança que não está sendo levada para um nível cada vez mais alto vai afundar para um nível mais baixo.” [p.93-94]) e como parte de um todo (“A necessidade de formar hábitos é parte integral desta filosofia, pois ajudam em relacionamentos funcionais.” [p. 89])

É imprescindível que se entenda que a proposta de CM em relação a disciplina não se trata de modificação de comportamento. “O treinamento não é formado na conduta no domínio do externo, mas como o cultivo de relações interiores com o eu, Deus, outros e o mundo, resultando em caráter e conduta. (…) Este treinamento é em consideração e responsabilidade – não em legalismo ou behaviorismo”. (p. 98) O treinamento deve visar uma mudança que começa na mente, e não só em comportamentos externos – para o bem da própria criança. “Ao se concentrar apenas no desempenho, a criança pode cair em linhas de pensamento que levam ao perfeccionismo, competitividade, obsessão, culpa e depressão” (p. 99)

Tendo isso em mente, pais e educadores tem duas diretrizes para trabalhar essa disciplina:

“- Nunca deixe a criança escorregar de sua responsabilidade pelo hábito.

– Nunca deixe o assunto ser uma causa de desgaste entre você e a criança (deixe-a sofrer as consequências naturais).” (p. 94)

Educar crianças disciplinadas e treinadas se torna cada vez mais necessário. É de total importância que elas sejam ensinadas a tomarem decisões e fazerem escolhas, por exemplo.  “As crianças agora estão sendo cobradas com esse esforço continuamente em uma idade cada vez mais nova através do clamor da publicidade da mídia e da nossa cultura.” (p. 94) Só que sem disciplina, sem treinar e fortalecê-las, elas não estarão adequadamente equipadas para fazerem escolhas. “A escolha exige discriminação, e uma criança muitas vezes não possui o conhecimento e o poder necessários para fazer escolhas ao longo desta linha. Ela recorre à gratificação imediata, a menos que tenha sido treinada no hábito.” (p. 95) Trabalhar isso pode ser feito através de pequenos hábitos domésticos, por exemplo: “A escolha de separar uma porção do guarda-roupa da criança e identificá-las como “roupas escolares”, permitindo que a criança escolha dentro dos limites”. (p. 95)

A criança precisa ser treinada para fazer escolhas sábias, corretas, boas. “Este esforço constante no treinamento da vontade pode ser realizado à luz do seguinte princípio: dê às crianças oportunidades para escolher adequadas ao seu crescimento e maturidade”. (p. 94)

As escolhas das crianças não podem ser ilimitadas (porque quantas vezes na vida temos escolhas assim?); elas precisam ter opções viáveis e saber que devem escolher entre elas. Isso especialmente em termos de dever. “A criança nunca deve ter a liberdade de não fazer seu trabalho, mas, em vez disso, deixe-a ciente de que a escolha de quão árduo será o fazer cabe a ela.” (p. 95) Minha mãe era mestre nisso! Eu não tinha a opção de não lavar a louça, mas eu tinha a opção de lavar uma vez bem ou lavar várias vezes seguidas.

Esse treinamento começa primeiramente na mente da criança. “Perguntas como “já tá bom?” nunca devem ser respondidas. Depende deles tomarem essa decisão neste momento com o conhecimento que lhes foi dado. Pois eles geralmente sabem o que é “bom” ou não “tão bom”, mas ficam dependendo da força, ou falta de, do instrutor para ser o esforço determinante em sua escolha.” (p. 95)

E parte desse treinamento vem com um lado doloroso: “É imperativo que a criança sofra por sua escolha pobre, ou ele aumentará em imprecisão e negligência.” (p. 95) “As consequências naturais para o aluno agindo de forma irresponsável não devem ser uma aceitação da tentativa como um mero ato de vontade. Pois assim, a criança está semeando hábitos de displicência e preguiça, o que pode trazer toda a vida de colheita disto. Vemos facilmente essa característica em crianças mais velhas que lamentam tarefas constantemente e dependem de outras pessoas para conseguir seu realizar seu próprio trabalho.” (p. 98)

Isso é uma ferramenta necessária para as crianças. “Os olhos das crianças devem ser abertos às possibilidades que se colocam diante dela enquanto ela aprende a se direcionar.” (P.96) Esse “se direcionar” não diz respeito apenas a roupas ou tarefas, mas será para sua vida como um todo: “Para que a vontade ter a característica de ser fortificada, a criança precisa ser informada das tentações que estão diante dela – a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (p. 97) Se a criança não aprender que escolhas ruins geram frutos ruins, como escolherá melhor no futuro?

“Charlotte Mason instruiu os adultos a “estabelecerem linhas de pensamento que puxem os pensamentos que a criança deve pensar, os desejos que ele/ela apreciará e os sentimentos que ele/ela permitirá.” (p. 95) Essas vontades interiores vão determinar sua atitude exterior. O intuito não é só corrigir a vontade interior, “mas na vontade fora do ‘eu’, em serviço e dever para com Deus e os outros.” (p. 97)

Ao trabalhar a vontade, a escolha, a disciplina “começamos, então, a ver as crianças como pessoas de poder intelectual e moral enormes e com propensão ao crescimento, e usamos todo o alcance da educação para tornar isso possível. Então a criança é capaz de viver, para dar qualquer uma dessas respostas (sim ou não) às problemáticas que se apresentam a ela. (…) Esses desafios não ocorrem em ocasiões grandiosas, mas disfarçados nos pequenos assuntos da vida cotidiana.” (p. 99)

Não podemos ser displicentes na disciplina, pois “é o propósito da educação e a função do educador treinar cada criança que nos foi confiada na formação de hábitos que permitirão que a criança realmente viva”. (p. 99)


Eu sou – nós temos o poder de nos conhecer.
Eu posso – estamos conscientes do poder de fazer o que percebemos que devemos fazer.
Eu deveria – temos dentro de nós um juiz moral a quem nos sentimos sujeitos, que nos aponta e exige o nosso dever.
Eu vou – determinamos exercer esse poder com uma vontade que é em si mesmo um passo na execução do que queremos.” (p. 88)

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10 thoughts on “a educação é uma disciplina

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  1. Puxa! Que responsabilidade, obrigado pela leitura

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  2. 😍😍😍
    Achei um tesouro!!!
    Sério mesmo, eu estou procurando materiais sobre Charlotte Mason…Mas a maioria deles está em inglês… Achar seu blog foi achar um tesouro mesmo!!! Somos homeschoolers e encontrei esse método a pouco tempo… O suficiente para me apaixonar… 😍

    Eu e minha família temos agora um blog também… Se quiser nos conhecer estamos no:
    http://antunescholl.wordpress.com

    Estamos te seguindo e aguardando mais de seus textos… ☺

    Grande abraço!!!
    Pati

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      1. Oi Suzana!!!
        Já virei sua “fã”..rsrs… e estou literalmente “devorando” cada letra e conteúdo…
        O plano de aula… ameiii… nossa não é coincidência… só pode ser a providência e o cuidado do Senhor…

        Que o Senhor continue a te iluminar…
        Eternamente grata…

        Bjs =***
        Pati

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