1, 2, 1.

Meu primeiro verão com o Pedro foi muito estranho. Ele foi meu primeiro relacionamento e os meses iniciais foram (pelo menos para mim) extremamente confusos. Era difícil lidar com 2 onde, até então, era só eu. Quando ele ficou 3 semanas hospedado na minha casa, tudo que eu fazia, nós fazíamos. Agora eu tinha que pensar na preferência dele, me planejar com os horários dele, lidar com a constante presença dele. Foi um choque de transição.
Um dia desse verão, meu pai pegou o Pedro para acompanhá-lo em alguma peripécia típica dele (me vem à mente catar manga no quintal do meu tio, mas não posso afirmar com certeza). Esse verão também foi o verão que minha família se adaptou ao Pedro (que era um elemento surpresa – alguém que não é de muito falar em uma dinâmica familiar de conversar 24 horas), e meu pai tentava estreitar os laços carregando ele para lá e para cá, puxando papo (as primeiras tentativas eram comicamente trágicas). Assim que ele saiu, me refugiei no meu quarto e pensei aliviada, “tempo para mim!”
Estava lá, deitada, contemplando toda aquela mudança de forma meio distraída quando minha mãe me assustou ao entrar no quarto com um leve estrondo (ela nunca soube abrir a porta do nosso quarto delicadamente e sempre se recusou a bater na porta, pois considerava isso “um absurdo! na minha casa? com as minhas filhas?!”). Ela olhou para mim com a cara mais neutra do mundo, como se falasse algo óbvio para toda a humanidade e disse, “As roupas do Pedro estão uma bagunça! Você deveria ir lá, catar tudo, botar o que tá sujo para lavar, pegar as roupas limpas, dobrar, passar e botar de volta. Quando ele voltar, vai ver que você preza por cuidar dele.”
Na hora, eu não sei se fiquei mais irritada (que culpa tenho eu que esse garoto não sabe cuidar das suas próprias coisas?!) ou incrédula. Eu lembro de ficar olhando para a cara da minha mãe e perguntar pausadamente “O que?”. Ela repetiu com um ar imperativo que só ela tem e ficou lá, parada, esperando. “Vai logo, Suzana!”
Quando ele voltou, percebeu e veio com um sorriso me abraçar e agradecer. Deveria ter ficado muito feliz mas a única coisa que me passou pela cabeça foi “Aff, até sobre o meu namorado minha mãe sabe mais que eu”.
Naquele dia, começou a cair minha ficha. Eu iria caminhar com o Pedro, e agora tudo dizia respeito à ele. Todas as minhas escolhas deveriam beneficiá-lo, até quando ele não estava. Comecei a ter um vislumbre de um texto que sempre amei, mas sempre vi de uma forma tão alheia a mim. “Seu marido tem plena confiança nela e nunca lhe falta coisa alguma. Ela só lhe faz o bem, e nunca o mal, todos os dias da sua vida.” (Provérbios 31:11,12)
Comecei a praticar lhe fazer bem, todos os dias. Não precisava lhe sentir bem todos os dias (e sinceramente, não senti) mas precisava fazer. E como a prática é difícil para alguém que consiste quase totalmente de teoria, de palavra, de pensamento. Deus foi muito bom comigo, porque me colocou debaixo de uma mulher extremamente prática para ser formada (se eu ganhasse um real por cada vez que ouvi “o amor é prático!” estaria escrevendo esse texto de um iate) e me deu um marido igualmente prático para servir.
Entendendo isso, me empenhei. Usava os métodos mais práticos de cuidar das coisas dele, de fazer comidas que ele gostava, de zelar pelo seu bem-estar. Por ser um relacionamento à distância, tinha que ser criativa também. Surpresas, pequenos presentes, bilhetes, cartas, até uma telemensagem rolou… um esforço diário para deixar claro: você é importante para mim. Quero te mostrar isso de todas as formas que eu puder.
Quando eu casei, a transição foi suave. Entendia que até meu tempo livre estava ali para servir o Pedro e que mesmo ele estando longe, continuo comprometida a lhe fazer bem e não mal, todos os dias da minha vida. Nisso procuro caminhar diariamente, ainda que entre tropeços.
E até hoje, é capaz dele abrir a gaveta dele e se deparar com um bilhete, escrito em aquarela que diz “Te amo!”, e por baixo, uma pilha de roupa lavada, passada e dobrada que comprova isso.
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