O valor do trabalho de Charlotte Mason, hoje

Esse texto faz parte de uma série sobre a filosofia de ensino de Charlotte Mason. Cada mês, postarei um resumo de um capítulo do livro “When Children Love to Learn: A Practical Application of Charlotte Mason’s Philosophy for Today”. O capítulo de hoje foi escrito por Susan Schaeffer Macaulay.


Já há alguns anos, o interesse pelo ensino CM tem reaparecido após décadas de um esquecimento quase absoluto. Existem alguns motivos pelo ensino CM ter caído em desuso, entre eles:
– o fato do ensino CM estar fundamentado no Cristianismo
– a necessidade da sociedade de ter um ensino que ensine suas crianças a dar manutenção ao status quo (isto é, a forma que a sociedade já tem operado)
– interesses do mercado de sempre ter uma “novidade”, seja educacional ou não.

Do meio do século 20 para cá, o que se tem de “novidade” é uma educação considerada cada vez mais “livre”, onde não há um molde, não há matriz, não há uma estrutura fixa, não há valores absolutos. Existe um (quase) consenso que esse tipo de coisa sufoca a criança, retira dela sua liberdade e inibe o seu desenvolvimento enquanto ser humano. Para entender os frutos desse tipo de educação, basta dar uma olhada em volta.

O interesse pelo ensino CM veio com o pensamento de que “certamente existia um método que não aniquilaria nem faria lavagem cerebral nas crianças, mas que iria ensiná-las certas coisas que elas precisam saber passo a passo. ” (p. 20) O ensino CM tem sim um molde, uma base, uma matriz fixa. E nisso, o ensino CM se destaca por ter algo que muitos professores podem testemunhar que falta atualmente nas teorias pedagógicas: realismo.

“A maioria das escolas progressistas realmente queria coisas boas para as crianças. Mas é impossível alcançar esses objetivos sem o realismo da verdade, até certo ponto, como o molde. Ideais não são alcançados só por desejá-los. Por diversas vezes na história, esperanças foram frustradas porque as pessoas não encaravam a realidade. ” (p 22)

A educação, de forma profunda e concreta, é cada vez um desafio maior, e não só por ir contra a atual cultura educacional. A deterioração da família e os péssimos hábitos em casa contribuem para isso. Crianças chegam em suas escolas sem ter uma alimentação saudável, sem ter o hábito de diálogos profundos com aqueles ao seu redor, passando horas sentados, sendo receptores passivos na frente do computador ou da televisão sem um contato real e estimulante com o mundo ao seu redor. Tudo isso contribui para um desinteresse profundo por se relacionar de forma ativa e profunda com o que os rodeia.

Em suas críticas a sociedade pós-moderna, a metodologia CM não tem de forma alguma o interesse de voltar ao passado, ou de ser um ensino cristalizado no seu tempo de origem. Muito pelo contrário, o ensino CM tem como objetivo ser adaptado para toda época e toda cultura. Ele sempre esteve presente em várias culturas por todo o mundo e sempre esteve à frente do seu tempo.

Na virada do século 20, o ensino para meninas, por exemplo, era muito restrito. Mas não para Charlotte Mason. Ela era clara em seu propósito: “Que a educação de uma menina seja tão séria quanto a de um menino. Você cria sua menina como se o propósito dela fosse ser apenas um adorno e depois reclama que ela é frívola. Dê a elas os mesmos benefícios que se dá aos meninos. Ensine a elas também, que coragem e verdade são fundamentos de seu ser.” (p.27)

Assim, ninguém deve ter a impressão de que o ensino CM pretende voltar 120 atrás como sendo o passado o ideal. “Charlotte Mason entendia que escolas e programas educacionais tinham o dever de serem atuais. Não adianta ficar lutando batalhas de 50 anos atrás! O que as crianças enfrentam hoje? O que elas enfrentarão amanhã? ” (p. 29)

O que muitos entendem hoje como antiquado na metodologia CM é isto: ela reconhece que há sim valor absoluto no mundo. Existe uma Verdade (que é uma Pessoa, Jesus Cristo). Mas ao contrário do que o mundo hoje acredita, essa verdade não a restringia, e sim a libertava. “Ela tinha a mente aberta, em um bom sentido. Ela nunca abriu mão da infraestrutura da verdade- nosso relacionamento com Deus através de Jesus como estabelecido em Sua Palavra; mas isso não fechava sua mente e nem sua visão. Ela era magnânima e culta. ” (p. 29)

O ensino CM ensina as crianças a interagirem com a realidade do mundo a sua volta, e inclusive incentiva esse contato. Mason achava que o ensino deveria envolver muito tempo lá fora, interagindo com as pessoas e com a natureza de forma livre. Nisso, ela se difere muito das nossas escolas, cheias de muro, grades, portões fechados. É irônico: a escola pretende ensinar a criança sobre o mundo a isolando dele.

O respeito pelo indivíduo é um pilar do ensino CM. “Em toda era e cultura, crianças são pessoas; elas devem ser servidas com respeito. Elas não são partes de uma máquina. Não só cada uma tem um nome, mas cada uma é diferente da outra, cada uma tem qualidades e defeitos e cada criança apreciará e se relacionará com a riqueza da vida de forma individual. ” (p. 30)

O ensino CM nunca incentiva o individualismo, mas sim o respeito pela forma que o Criador teve de fazer cada um de Seus filhos e pelo momento em que eles estão. Crianças devem ser crianças: brincarem, correrem, fazerem muitas perguntas, serem livres para viver aquele momento que Deus deu a elas para desfrutarem. “Uma forma extremamente prejudicial de abuso contra a criança é esperar que ela seja algo que não é.” (p. 31)

Certamente, Charlotte Mason acharia assustador a obsessão atual pelo estímulo constante, pela necessidade de se tornar cada momento do dia em uma atividade com propósitos pedagógicos pré-determinados. “As pessoas hoje cometem um erro pedagógico monumental. São como aquela pessoa que acha que se uma colher de remédio faz bem, então 10 colheres serão melhor ainda! ” (p. 37) Esse desespero pelo educacional é tão contrário ao ensino CM; ele entende que o processo é orgânico, e tem seu ritmo natural.

“Encher todos os horários da criança retira dela o tempo que ela tem para escolher sua brincadeira, estar sozinha ou socializar com amigos, ajudar nas tarefas da casa, ler os livros que quer ou desenvolver hobbies. Isso é uma perda para toda a vida. Sem esse tempo, o interior delas fica estagnado; elas não se desenvolvem de dentro para fora. (…) Permita que a criança aproveite a vida completamente até os seus 6 anos. Se a criança não vive em uma casa estável, segura onde os membros da família se divertem e aproveitam um ao outro, que se encontre um ambiente que sirva de substituto. Elas precisam se desenvolver naturalmente no seu próprio ritmo. Dentro desses relacionamentos essenciais para elas, haverá aprendizado que elas irão absorver. Crianças amam ter todo tipo de conversa, fazer perguntas, ouvir histórias sendo lidas várias vezes. Elas pintam, cantam, ajudam os adultos. Elas não devem ficar sem uma rotina estabelecida, e é nessa fase que elas devem desenvolver o hábito de viver dentro de limites. Isto é, elas são ensinadas a aceitar livremente o que podem ou não podem fazer, a ouvir o que é dito a elas, e a cooperar com alegria. ” (p. 38)

De forma alguma o ensino CM prega uma falta de organização, de rotina, de autoridade. Ele se difere da educação pós-moderna exatamente nisso. Existe a liberdade, mas existe também a moderação. “Crianças não precisam de professores que sejam seus coleguinhas casuais, mas elas gostam de adultos amigáveis que lideram com clareza e segurança.” (p. 34) A estrutura, a autoridade está presente e jamais deve ser aniquilada, no entanto, ela deve ser utilizada para o crescimento mútuo, e não para a imposição de uma parte.

Juntos, professor e criança estão debaixo de uma autoridade maior. A criança não deve ouvir que ela tem que ser boa para agradar o pai ou o professor. Crianças e adultos devem escolher obedecer a Deus. Ambos estão aprendendo a serem pessoas melhores e ambos estão interessados em aprender dos livros, da natureza, arte, música. Ideias são discutidas. O pensamento é importante. Crianças tem ideias maravilhosas! Elas crescem com uma auto-estima apropriada quando são ouvidas e permitidas a serem o que elas são. ” (p 35)

Um dos aspectos mais lindos e únicos da educação CM é sua apreciação pelo que há de belo e valoroso no mundo. As crianças são estimuladas a caminharem pela natureza e contemplarem a criação em sua plenitude. O contato com a arte, a música, a literatura, a história nunca deve ser mastigado. Crianças não precisam que você explique o que o quadro simboliza – deixe que elas interpretem por si só! Não precisam de histórias simplórias e reduzidas para que entendam e sim de histórias ricas que as engrandeçam, que abram sua visão! Incentive-as a se relacionarem com o profundo e real no dia-a-dia, nas músicas, nos passeios, nas viagens. * O contato com o belo, com o significativo não precisa de um mediador para que elas sejam capaz de interagir, de compreender, de aprender.

O ideal da educação da Charlotte Mason não é nos retirar do comum, mas nos enriquecer, cada um, com os melhores relacionamentos possíveis – relacionamento com Deus, com as pessoas em nossas famílias e comunidades e com outros através de livros, arte ou música e com a própria criação de Deus. ” (p. 35) A educação hoje perdeu o foco daquilo que importa e trocou a grandeza de relacionamentos significativos e reais pela ilusão vazia do sucesso – um bom salário, um emprego com status, um belo diploma na parede.

Que as crianças saibam lidar desde novas com coisas grandiosas, com dilemas profundos, com questionamentos sinceros – esses não são obstáculos para o seu desenvolvimento! A educação cristã não é uma que restringe a mente da criança, e nem que reduz a sua fé a uma lista de conceitos e comportamentos. “É terrível tornar essa pessoa maravilhosa [Jesus] em uma lição.” (p. 44) O questionamento não é desobediência, e não pode ser tratado como tal. As crianças precisam aprender, não só através do ensino formal, mas observando isso na prática ao seu redor, que o relacionamento com Deus é um de sinceridade, simplicidade, troca constante e vida em abundância.


* Se eu, Suzana, pudesse escrever um livro sobre ensino na infância, o título seria “Larga o Mickey: como reduzir a infância a Disney deixa seu filho raso, fraco e incapaz de lidar com a realidade”.

créditos da imagem

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One thought on “O valor do trabalho de Charlotte Mason, hoje

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  1. Ei querida !!
    Estou gostando demais de ter acesso ao ensino CM. Muito obrigada pela sua disposição em fazer essas postagens. Beijo

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