o Amor no tempo da cólera

“Minha filha, um copo de água doce não derrama água amarga, não importa quão violentamente ele for sacudido.”
-sabedoria da dona Sued, minha mãe e musa
Estamos afogando em águas amargas, e a cada notícia compartilhada, a cada desdobramento, a cada “textão” publicado, afogamos mais. Como preservar o amor?
É simples: basta olhar para Ele. E podemos fazer isso em três tempos distintos.
Pai – Vemos tantas defesas violentas, vozes levantadas, comentários raivosos e cheios de razão. Como somos presunçosos! Sabemos de uma parcela tão pequena da realidade, e fazemos tanto barulho. Me lembro de quando Deus falou com Elias. “E eis que o Senhor passou; e um grande e forte vento fendia os montes e despedaçava as penhas diante do Senhor, porém o Senhor não estava no vento; e depois do vento um terremoto, porém o Senhor não estava no terremoto; e depois do terremoto um fogo, porém o Senhor não estava no fogo; e ainda depois do fogo uma voz mansa e delicada.” (1 Reis 19:11,12)
Penso que o Senhor fala em uma voz mansa e delicada porque tem convicção do valor eterno e verdadeiro de Suas palavras. Ele pode falar pelo fogo, terremoto, vendaval…mas não precisa. O espetáculo não altera em nada o valor de Suas palavras. Aquilo que Ele diz, é. E ele está absolutamente seguro naquilo que diz. E então, não precisa gritar. Não precisa agredir. Não precisa de auto-afirmação. A identidade dEle está baseada e fundamentada. Ele não tem dúvidas: Eu sou o que eu sou. (Êxodo 3:14)
Já nós, não. Precisamos da validação dos outros! Eu não posso admitir que alguém que discorda de mim não saiba da minha discordância… preciso ser contemplada! Preciso dos meus direitos! Preciso que concordem comigo! Preciso me expressar, e não basta eu me expressar se ninguém ver, certo? Nós sim, precisamos do espetáculo e da plateia.
Filho – “Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora.” (João 16:12)
Que beleza rara, de um Homem que personificava a verdade e mesmo assim tinha o discernimento de se calar. Não por Ele. Não por falta de verdade. Não por falta de entendimento. Mas por amor. Sabendo que falar naquele momento não seria edificante. Porque Cristo conhecia a Palavra e sabia: “Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” (Provérbios 25:11)
Mas não nós! Nós precisamos dar nossa opinião a tempo e fora do tempo. Mas especialmente fora do tempo. E de preferência fora de lugar. Vamos discutir nossas visões pessoais, nossa fé, vamos expor nosso coração para o mundo ver! Para meu amigo, minha mãe, o colega de faculdade do meu primo, o estranho que caiu lá de paraquedas… todos precisam ser iluminados pela minha verdade. Como eles podem viver sem tamanha revelação?
Espírito Santo- E é muito fácil sair pela tangente, afinal: todos estão nervosos! As pessoas estão com os nervos à flor da pele! É a crise! São os outros! Mas Jesus não nos dá essa prerrogativa. Muito pelo contrário. Ele diz: a boca fala do que o coração está cheio. (Mateus 12:34) Não do que a nação está cheia. Não do que o facebook está cheio. Não do ambiente político de todos. Não por consequência do que o outro fez. O seu coração. Aquilo que você fala não é fruto do meio. É fruto do que está transbordando o seu coração.
Não é que estão te sacudindo violentamente. É que você está cheio de amargura. 
E é isso que o Espírito Santo fala a Igreja através de Tiago: “Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma mesma boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto se faça assim. Porventura deita alguma fonte de um mesmo manancial água doce e água amargosa?” (Tiago 3:9-11)
Não convém que amaldiçoemos os homens; não só os irmãos, não só os corretos, não só os bons, não só os que concordam comigo. Os homens. Todos. Feitos à semelhança de Deus. Incendiamos bosques (Tiago 3:5) sem pensar na sombra da qual deixaremos de desfrutar depois.
Que de nós flua águas doces. E águas silenciosas.
“O que guarda a sua boca e a sua língua, guarda das angústias a sua alma.” (Provérbios 21:23)
{créditos imagem: http://files.doobybrain.com/wp-content/uploads/2013/06/joshua-tree-on-fire-930×609.jpg}
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4 thoughts on “o Amor no tempo da cólera

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  1. Difícil mesmo é calar! Adorei.. Tennho tentado beber muita água quando tenho que calar. Mas é realmente uma das tarefas que precisam de muita atenção e perseverança! Beijo, Su.. To adorando os textos!

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  2. Parece haver um consenso sob os escombros da política brasileira, um acordo tácito abaixo da linha de fogo: todos reconhecem que a atmosfera está envenenada pelo ódio e por polaridades radicalizadas. Isso torna útil o serviço da perícia. Está na hora de recolher vestígios e mapear rastros, na expectativa de que nos levem ao mapa da mina.

    Em nosso caso, a mina de ouro não está nos extremos furiosos e enrijecidos, mas nos canais submersos que os ligam e separam, como se fossem vasos minúsculos de comunicação, dando passagem a movimentos imperceptíveis de transição, nos quais se introduzem nuances e gradações. Essa cartografia dinâmica talvez possa, uma vez explorada, municiar os atores dispostos a construir pontes e parâmetros para a concertação que se imporá, em algum momento –ou não teremos país algum.
    Luiz Eduardo Soares Antropólogo

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