sim, nós somos únicos

“Suponho que as mesmas pessoas que dizem que você não pode comandar as suas emoções também diriam que você não pode mandar o coxo andar ou o morto viver.” – John Piper
Cris, a manicure que me atendia, levou a mão ao rosto e ficou boquiaberta – “60 dias?! Como você aguenta?”
Ela não foi a primeira, nem a vigésima, certamente não a última. Todos ao descobrirem que o meu marido passa 60 dias no meio do mar trabalhando tem uma reação forte, normalmente uma mistura de choque, surpresa e dó. É normal, e por mais que em alguns dias eu já esteja de saco cheio dos olhos arregalados, eu entendo. Na teoria a maioria também crê que “basta a cada dia seu mal”, mas na prática querem saber de datas, da semana que vem, do Natal. Os comentários variam desde a empatia (“quer que eu durma na sua casa?”) até a falta de noção (“ai que horrível!”). Se alguém me falasse isso janeiro de 2012, eu também acharia um horror (provavelmente teria o bom senso de ficar calada, mas também pensaria isso).
Mas cá estamos nós, e eu não sei o que assusta mais as pessoas, o Pedro passar 2 meses fora ou eu estar tranquila quanto a isso.
Tranquila? Sim. Não que não tenha dias que eu chore muito (o que me é normal, aliás). Não que eu não durma abraçada com as coisas dele. Não que eu não tenha cogitado passar 60 dias sem passar pano na casa para deixar a marca do pé dele no piso. E eu tenho certeza que no dia que ele embarcou eu respondi pelo menos umas 10 pessoas que vieram falar comigo com variações de: “hoje não”, “tchau”, “humpf”. Sim, eu sofro, e acho que sei sofrer como poucos.
Quem convive conosco até estranha. É quase normal me ver seguindo o Pedro até o banheiro e quase impossível me ver do lado dele sem eu estar cheirando, esmagando, abraçando ou no mínimo de alguma forma tocando nele. Eu sou loucamente apaixonada pelo Pedro e já expressei (seriamente) um desejo de ser uma canguru e ficar com ele dentro da minha pochetinha natural o resto da vida.
Então, hiper-apegada como sou, como estar tranquila?
Tudo começou quando eu percebi que Deus é bom. Deus é bom. Tudo que Ele faz coopera para o meu bem. (Rm 8:28). Esse marido, esse emprego, cada dia desses coopera para o meu bem.
Por um tempo, isso foi um paradoxo na minha cabeça. Não era bom. Queria meu marido em casa 18:30, cansado. Eu esperaria com um lanche na mesa, daria beijinhos. Viajaríamos nas férias.
Fui ler o que a Palavra dizia sobre maridos. Ele deveria me amar, dar a vida por mim, me santificar, me sustentar… li todos os textos e não achei o cruzeiro de fim de ano. Lembrei do que Paulo escreve: o fundamento é Cristo, e cada um edificará em cima disso como entende.
E percebi: nós somos únicos.
Não é o emprego do Pedro que nos torna diferentes. Quem nos torna únicos é Deus. Filhos únicos, diferentes de todos os outros no mundo, com um casamento único e toda uma vida única pela frente. O emprego do Pedro não é a única coisa que temos de diferente: nossa sintonia é única, nossa amizade, nossas vontades, nossas convicções, nossas piadas, nossos momentos, nossas histórias, nossos bilhetes, nosso ritmo, nossa rotina, nosso jeito…tudo nosso não pode e não deve ser comparado a mais ninguém, e é só nosso. E entender isso como propósito de Deus é libertador.
Estou me desapegando das expectativas: tanto as externas quanto as internas. Percebi que uma vida pressionada por expectativas não é uma vida vivida em abundância. Theodore Roosevelt disse uma vez: “A comparação é a ladra da alegria”; eu não nos comparo. Aprendi a viver um dia de cada vez e não, não vivo em contagem regressiva – sei a data exata que ele desembarca, mas não fico contando todo dia como se fosse menos um. Cada dia é único e também é presente de Deus, e deve ser desfrutado com alegria e gratidão. Se Deus, em determinado dia, me deu meu marido para aproveitar, eu aproveito muito. Se Ele me deu a mim mesma, eu aproveito bastante também. Aprecio tanto os momentos, quanto as memórias. Caso eu esteja triste, não faço questão de ficar disfarçando para as pessoas acharem que eu estou bem. Tento usar meu tempo de forma produtiva. Não faço planos a longo prazo e não conto com datas comemorativas. Toda noite eu agradeço pelo marido que Deus me deu – ele estando do meu lado ou não. Procuro o fazer bem todos os dias da minha vida – ele vendo ou não. Eu dou graças a Deus por poder falar com ele todo dia. Dou graças a Deus por ser uma com ele, poder ser companheira – não só nas horas legais. Dou graças a Deus porque nEle sou capaz de tudo. Dou graças a Deus por crer que qualquer sofrimento me aproxima mais dEle. Dou graças a Deus por ter uma família linda e enorme ao meu redor. Eu dou graças. Em todo o tempo, eu dou graças.
Então para responder a pergunta inicial, é assim que eu aguento.
“Ocasionalmente, chore pelo que você achou que a vida seria. Entristeça-se com as perdas. Depois, lave o seu rosto. Confie em Deus. E abrace a vida que tem.” – John Piper
mafalda
“hoje quero viver sem me dar conta.” ❤ – afinal, amanhã trará os seus próprios cuidados.
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