o valor do imutável

já falei aqui sobre o descaso que temos com coisas velhas, né? pois é, apesar de ser dessa geração lança-o-novo-iphone-logo, eu sempre fui bem das antigas. minha mãe pode atestar: passei boa parte da minha infância me fantasiando em outra época (que dependia da fase literária que estava vivendo).
através dessa curiosidade, percebi que a sociedade como produto humano estava sempre mudando. nossa geração se acha a pioneira em mudar, em “desconstruir”, em rejeitar o que os antepassados produziram… na verdade, somos só uma geração que perdeu a habilidade de olhar para trás com um olhar atento de apreciação e aprendizado. no entanto, em tantos altos e baixos, em tantas oscilações do pêndulo algo permaneceu firme, inabalável, imutável.
como discípula, estou longe de achar que devemos viver de história do cristianismo. o olhar deve permanecer fixo não em teorias, grandes teólogos ou estruturas, mas sempre em Cristo. mas não podemos deixar de beber da sabedoria e da visão que irmãos tiveram ao longo desses séculos. é tolo fazer como nossa geração que descarta tudo vivido e que pensa que suas próprias vontades são absolutas (apesar de rejeitar o absolutismo de qualquer coisa…vai entender). os marcos antigos foram postos por um motivo. (Pv 22:28)
com essa visão, sempre olho escritos dos nossos antepassados na fé. tenho a impressão que quando as coisas atravessam séculos e fronteiras, é porque elas são de valor inegável. e isso me traz a um dos meus cânticos prediletos: “it is well with my soul”.
“it is well with my soul” foi escrito por um homem chamado horatio g. spafford em 1873. o cântico é fruto de uma experiência pessoal: em 1871, um incêndio destruiu todos os seus investimentos imobiliários. dois anos depois, ele envia sua esposa e quatro filhas para a inglaterra; o navio sofre um acidente e 226 pessoas morrem…incluindo todas as filhas de horatio. a esposa manda uma carta (“salva, porém só”) e ele pega outro navio para encontrar-se com ela e quando ele passa pelo local onde as 4 filhas morreram, ele escreve “it is well with my soul”.
a adaptação mais conhecida desse cântico é bem famosa: “sou feliz com Jesus”. eu entendo que para manter o ritmo, quem fez a adaptação teve que fazer algumas escolhas…eu particularmente não gosto da adaptação, porque acho que perde muito a qualidade da letra. tendo isso em mente, fiz uma tradução livre (sem necessidade de rimar ou de caber em uma música) de uma das versões da letra (desde 1873, já tiveram algumas) com as minhas próprias escolhas de tradutora:
“1. Quando a paz, como um rio, vem em minha direção,
Quando as tristezas derrubam como ondas do mar,
Qualquer que seja meu destino, Tu me ensinastes a dizer:
Minh’alma está em paz.
Refrão:
Minh’alma está em paz,
Está em paz, minh’alma está em paz.
2. Mesmo que Satanás me esbofeteie, mesmo que venham as dificuldades,
Que essa certeza abençoada me controle:
Que Cristo levou em conta meu estado deplorável,
E derramou Seu sangue pela minh’alma.
3. Meu pecado – oh! que alegria me traz esse pensamento glorioso! –
Meu pecado, não em parte, mas todo
Está pregado na Cruz, e eu já não o carrego mais!
Louve o Senhor, louve o Senhor, ó minh’alma!
4. Para mim, que seja Cristo, que agora em diante o viver seja Cristo.
Até mesmo que o Jordão passe por cima de mim,
Nenhuma dor será minha, pois tanto em morte quanto em vida,
O Senhor sussurrará paz em minh’alma.
5. Mas Senhor, é por Ti, pela Tua vinda que aguardamos!
O Céu, não o túmulo, é nossa esperança,
Oh, a trombeta do anjo! Oh a voz do Senhor!
Esperança abençoada, descanso abençoado da minh’alma!
6. E Senhor, apresse o dia, quando a fé se tornará vista,
As nuvens se abrirão como um pergaminho,
A trombeta tocará, e o Senhor descerá,
E assim, minh’alma está em paz.”
o refrão se canta após cada estrofe. “it is well with my soul” foi traduzido para “sou feliz com Jesus”, o que para mim é uma perda. primeiramente porque a letra não fala de felicidade, e sim de paz, convicção, fé, esperança, perseverança diante de dificuldades. segundo porque tenho implicância pessoal com o termo “felicidade” (atribuo a implicância ao mau uso da palavra. nada contra ela de forma etimológica). tenho a interpretação que parte da canção é uma afirmação (“minh’alma está em paz”), outra parte é uma oração (“Senhor, apresse o dia…”) e outra é como se ele falasse com a própria alma (“louve o Senhor, ó minh’alma!”).
creio que a fé é sempre uma marca eterna em um mundo temporário. o duradouro em meio ao descartável. o sólido em meio a toda essa liquidez. dessa forma, horatio g. spafford escreveu há 143 anos atrás algo que permanece até hoje sem sombra de mudança.
___
essa versão, minha predileta, está no álbum “The Hymns Sessions – Vol 1” do Jimmy Needham, que é uma coletânea de 8 releituras de hinos clássicos e 2 canções originais – vale a pena ouvir (e meditar sobre)!
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