este corpo que não te pertence mais

Com projetos de lei referentes ao aborto e outras discussões em torno do tema, é muito fácil abrir qualquer rede social e ter opiniões contraditórias. Quem manda no meu corpo sou eu! Esse corpo não é seu! E por aí vai… É difícil (graças à Deus) achar um discípulo que defenda o aborto. “Esse negócio de ‘meu corpo, minhas regras’ não cola com a gente! Nosso corpo não nos pertence!” afirmam os enfáticos. Será?
É importante notar que essa afirmação, que já virou um lema da vida pós-moderna – “meu corpo, minhas regras!” – não diz respeito exclusivamente ao aborto. Isso pode dizer respeito a quem mutila seu corpo, implanta chifres na testa, tenta alterar a identidade sexual. No aborto somos irredutíveis, mas será que, em outras áreas, Cristo tem reinado sobre nossos corpos?
Argumento que não muito. A sociedade com seu constante bombardeio de informação e deturpação tem, de certa forma, minado vários princípios bíblicos sobre o nosso corpo, sua função, importância e papel.
Precisamos entender: porque a sociedade tem interesse em fazer isso? Zygmunt Bauman, sociólogo (já mencionado aqui antes), fala um pouco sobre esse processo, que ele chama de “autofabricação”, em “Vida para consumo – a transformação das pessoas em mercadoria”. O que você tem e é não basta. Você precisa se fazer. Sobre isso, ele diz: “Ser membro da sociedade de consumidores é uma tarefa assustadora, um esforço interminável e difícil. (…) Os mercados de consumo são ávidos por tirar vantagem desse medo, e as empresas que produzem bens de consumo competem pelo status de guia e auxiliar mais confiável no esforço interminável de seus clientes para enfrentar esse desafio. Fornecem as “ferramentas”, os instrumentos exigidos pelo trabalho individual de “autofabricação”.” 
Este processo se torna evidente em todos os sentidos do mundo em que vivemos. “Torna-te aquilo que és” disse Nietzsche. “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher” disse Beauvoir. É de uma ironia maravilhosa, pois esse foi o primeiro engano que nos foi dito. Deus nos fez a Sua imagem e semelhança e a serpente disse: “Coma do fruto e será como Deus!” (Gn 3:5)
Bauman também fala: “A sociedade de consumo prospera enquanto consegue tornar perpétua a não satisfação de seus membros (e assim, em seus próprios termos, a infelicidade deles).” Que distante da natureza divina – não satisfação eterna. Jesus é eternamente glorioso, cheio de alegria e através da Palavra nos ensina: “é grande ganho a piedade com contentamento.” (1 Tm 6:6)
Até então, nada fora do óbvio. Sim, o mundo é ruim, cheio de engano e procura nos destruir. O que isso tem a ver com Cristo reinar em nossos corpos? 
“Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos?” (1 Co 6:19) [ênfase minha]
Eu entendi melhor como funciona ser morada mas não ser dona depois que casei. Alugamos nosso apartamento e eu queria pintar a parede da sala de azul. No entanto, o apartamento não me pertencia. Tive duas opções: ou pagava uma taxa para pintar, ou assinava um termo falando que devolveria exatamente do jeito que pegamos. 
Porque com nossos corpos deveria ser diferente? Eles não nos pertencem. Isso não diz respeito apenas a aborto. O mundo está no processo de criar essa necessidade específica, mas já criou inúmeras outras: cirurgias plásticas, academias, suplementos, tatuagens, piercings, depilações, maquiagens, progressivas, luzes, botox, roupas da moda, etc. 
“Obter novas versões dessas roupas, reconstruir esses estilos e substituir ou reformar as versões defasadas são condição para estar e permanecer em demanda: para permanecer desejável o suficiente para encontrar clientes interessados, quer se esteja ou não lidando com dinheiro.” (Bauman) Li isso, parei e olhei em volta e percebi quão sórdido é este constante processo de prostituição. O mesmo que queremos nos nossos produtos, queremos de nós – temos que ser sempre novos, sempre nos renovando, sempre nos mudando, sempre nos moldando as demandas que o mundo cria.
Não estou de forma alguma argumentando que ninguém nunca deva interferir no seu corpo. Esse texto está sendo escrito por uma pessoa que não possui o cabelo natural nem em textura, cor, nada… Mas antes de nos modificar, submetemos o que fazemos com nossos templos a quem é adorado neles? Oramos? Procuramos na Palavra? Discernimos nosso coração sobre o que nos faz desejar isso? Por fim – perguntamos ao Dono?
Que nós tenhamos a autoridade de dizer que no nosso corpo, não reina as nossas regras. Não apenas com frases de efeito e posts na internet, mas com vida e submissão.
“Desde agora ninguém me inquiete; porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus.” (Gl 6:17)
Quem quiser meditar mais sobre o assunto, recomendo: Romanos 12:1, Romanos 6:13, 1 Timóteo 4:8, 1 Coríntios 6:12-20, Salmos 139, 1 Coríntios 3:16, Filipenses 1:20, 1 Coríntios 9:27, João 2:19-21
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4 thoughts on “este corpo que não te pertence mais

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  1. O problema é que quem escreveu aquele grafite no muro não divide da sua crença, e a partir do momento que você vc diz a ela que ela não manda no corpo dela, porque o Deus que ela não segue, ou então que segue, mas tem um entendimento D’ele diferente do seu, é quem verdadeiramente manda no corpo dela, vc está querendo impor sua opinião sobre a vida dela!
    Não estou dizendo que é o que vc fez, mas é muito comum pessoas da sua crença (bancada evangélica do congresso, por exemplo) tentar impor à sociedade, opiniões, ideologias e padrões de vida próprios. Isso não é de hoje, e nem de ontem! Por muito tempo os seus padrões regeram a sociedade de forma a não garantir direitos presentes nas suas próprias escrituras sagradas, sendo o mais gritante o livre-arbítrio. A discussão a ser feita tanto por vcs nesse tipo de assunto quanto por nós no que tange as suas ideologias é simples: Eu quero abortar? Não, acho isso um pecado! Então não abortarei. Eu quero esperar até o casamento para transar? Não, acho isso ridículo. Então não esperarei. Eu quero me casar com alguém do mesmo sexo que eu? Não, acho isso nojento. Então não casarei. Eu quero jejuar, orar e viver em santidade? Não, acho que ser assim é ter a mente fechada. Então assim não viverei.
    Percebeu o ponto final ao término de cada frase? É isso que falta de verdade! Eu não quero e ponto, a vida do outro é com ele e Deus!

    Espero não ter te chateado, pois não era minha intenção. Só acho que por muito tempo vcs lutaram pra ter a liberdade religiosa e ideológica que hoje vcs têm, pra de alguma forma tentar cercear, ou abolir a dos outros.

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    1. ei Anônimo! de forma alguma você me chateou, adoro feedback de qualquer um! mas se você ler o texto todo, verá que ele é direcionado a quem compartilha da minha fé…por isso uso a Bíblia como base e o texto que fala sobre ser templo de Deus. esse texto não é direcionado a quem não se considera templo, e ele fala sobre submeter o corpo totalmente a Cristo SE você diz que Ele é Senhor do seu corpo. não acredito que quem não crê nisso vai realmente se submeter a abrir mão do seu livre arbítrio. portanto, alguém que não crê no que eu creio não é obrigado a viver isso, ou sequer ler meus textos. não creio que por leis podemos induzir pessoas ao comportamento cristão, até porque comportamento sem um novo coração não é de valor nenhum. mas como você disse, lutamos para ter liberdade religiosa e isso inclui pensar, ler, escrever e compartilhar…
      “Eu creio no Cristianismo tal como creio que o Sol nasceu, não apenas porque o vejo mas porque através dele eu vejo todas as outras coisas.” (CS Lewis)

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      1. Com certeza! Não tiro nunca seu direito de pensar, ler, escrever e compartilhar! Achei seu texto muito bem escrito e interessante, com argumentos válidos para a sua forma de ver a vida, assim como a crítica feita a alguns nos quais Cristo não reina de forma absolutas em suas vidas.
        Admito, que de certa forma dei uma generalizada em meu comentário, por conta de várias postagens que vi pelo facebook de pessoas que dividem sua fé, inclusive amigos seus, dizendo que essas mulheres são “ridículas”, ou que “deveriam parar de mimimi”, ou até mesmo “caçar uma roupa para lavar”. Defendo sempre a sua liberdade de expressão, a minha única crítica, não foi direcionada a vc, e sim a quem pega coisas como o que vc disse, e tem atitudes como as relacionadas acima, que na minha opinião, passa de liberdade de expressão para ofensas geradas pela falta de respeito pelas diferença alheias!
        Bom saber que vc não acha que esse é o caminho que vcs devem seguir, e se me permite, acho também que seria um ótimo tema para um futuro texto seu!

        Do seu novo fã e seguidor, com as desculpas devidas,

        Anonimo da Silva Sauro

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      2. sim, é algo muito interessante para o cristão pensar: qual autoridade um cristão tem em falar “meu corpo é de jesus, eu não mando nele” se em decisões diárias, ele não tá nem aí para o “dono” dele? Porque temos 2 pesos e 2 medidas?
        na verdade, penso que a postura dos cristãos em relação ao governo deveria ser o seguinte: “Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens; pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade;” (1 Timóteo 2:1,2) eu não sei porque as pessoas querem ficar depreciando os outros, brigando, ofendendo (ou apoiando aqueles que ofendem) ao invés de ter uma vida quieta e sossegada. creio que tem muito a ver com o momento que vivemos como sociedade mas fico muito triste porque não temos sido diferentes nisso.
        enfim, adorei que você me escreveu e sinceramente não fiquei nem um pouco chateada…adoro perspectivas diferentes e também creio que como cristãos, nós deveríamos ser as pessoas mais amáveis e acessíveis a quem pensa diferente e quer conversar (sem necessariamente eu precisar convencer a pessoa a pensar como eu) apesar de nem sempre essa prática ser a vigente… tomara que você volte mais vezes 😀

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