“don’t touch me!”

Há quase 9 anos atrás, eu desembarquei em Vitória. Após 12 anos, voltei para meu lugar de origem.

Fui recebida por muitos irmãos, familiares, velhos amigos dos quais eu nem lembrava. Eles conheceram a Suzana em toda sua (falta de) glória: com uma língua ferina que tinha uma resposta pronta (e mal criada) para tudo, quase perpetuamente de cara fechada, permanentemente criticando tudo a minha volta. Durante os 8 anos que morei fora do Brasil, tinha aprendido o significado de personal space (espaço pessoal): cada um tinha o seu, e ele deveria ser sempre respeitado. Isso ajudou a desenvolver em mim uma aversão a qualquer toque físico que não fosse explicitamente solicitado e uma frase pronta para quando sentia que meu espaço estava sendo invadido: “Leave me alone!”

Eu cheguei e logo vi que todos esses irmãos não tinham sido ensinados sobre personal space– eles abraçavam e encostavam o tempo todo, compartilhavam sobre coisas íntimas, apareciam na minha casa em horários estranhos (e ficavam bastante tempo!) e cometiam a pior das invasões: eles me falavam que eu estava errada.

Menos de um ano depois da minha chegada, em frente a umas 300 pessoas, chorando e tremendo ao segurar o microfone, eu pedi perdão por não saber amar os irmãos. E não sabia. Na minha bolha de espaço, só cabia uma pessoa: eu.

A minha bolha se rompeu. Eu fui corrigida. Várias vezes por desconhecidos. Às vezes por inbox. A maioria das vezes repetidamente. Perdi conta de quantas vezes pedi perdão, de quantas vezes chorei, de quantas vezes fui perdoada.

Sete anos depois, eu subia no elevador de casa, e suspirava: “Ás vezes parece que no meu relacionamento tem eu, o Pedro e mais 500 mil pessoas. Todo mundo quer participar de tudo…”

Em um casamento, eu e o Pedro fomos tentar dançar. Foi trágico. Eu queria desistir, ele queria insistir. Quando um não quer, dois não dançam. Acabamos sentados, emburrados, olhando os outros pares rodopiando. Logo, chegou um irmão e perguntou “posso sentar aqui?”. Mal pronunciei o ‘S’ de sim, e ele já se colocou do lado do Pedro e disparou a falar. 5 minutos depois, outra irmã chegou e disse: “Reparei que vocês estão chateados…você se importa se eu te perguntar porque?” Eu expliquei, ela sorriu e disse: “Okay, vou sentar aqui do seu lado, tá?”.

E aí eu pensei: o que seria um relacionamento que tivesse só nós dois? Seria menos. Seria menos desgaste, menos risadas, menos programas, menos conselhos, menos convites, menos lanches, menos versículos, menos gente, menos alegria, menos crescimento, menos Jesus. E o Senhor me falou que meu relacionamento seria infinitamente mais: mais do que pensava, sonhava, imaginava.

Qual o propósito de uma vida que tem seu fim em si mesmo? Um casamento feito só um para o outro?

Alguns dias atrás recebi um email da irmã em Salvador que recebeu a mim e ao Pedro. Sem a casa dela, nada teria acontecido e eu escrevi agradecendo pela milésima vez porque sou loucamente apaixonada por eles e ninguém aguenta mais me ouvir falar de Salvador. Ela me respondeu:

(…) Sabe qual minha maior expectativa? É que vc e Pedro possam fazer o mesmo com muitos outros que se aproximarem do lar de voces. Se nossa vida não for util pra servir e amar então não vale a pena viver. O que fizemos foi fruto de Jesus em nós, não por sermos legais…
Se nossos sofás não se gastarem por acolher tantos, se nossa comida não tiver que ser multiplicada diariamente e em nós nao operar morte pra tantos terem vida , é viver sem ter valido a pena…” (sic)

Pensei em todos os irmãos que me animaram, exortaram, ensinaram, tocaram em mim, caminharam comigo, investiram em mim, choraram comigo, me consolaram, me disciplinaram, interferiram na minha forma de falar, de me relacionar, de me vestir, de viver e percebi que cada um desses irmãos me salvou. A bolha que eu mantinha em minha volta me impedia de ser totalmente amada, servida, corrigida, orientada, abraçada por irmãos que zelam pela minha vida. Irmãos que nunca quiseram me ver morrer.

“Ele morre pela falta de disciplina; e pelo excesso da sua loucura anda errado.” (Pv 5:23)

Sigo encantada com a vida da Igreja. A que me ensina, mesmo que sem falar. Que me rodeia, mesmo que eu não peça (ou queira). Que “interfere”, mesmo que eu não entenda. Aquela que se desgasta, se doa, se dá por amor.

Para mim, se for para viver de outra forma, não vale a pena viver.

 

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